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05 abril 2007

Resposta de Calvino a um pastor

Amado irmão,

Visto que por sua excelente doutrina e maravilhosa graça em falar tem merecido (e com toda justiça) ser tido em grande admiração e estima entre os sábios de nosso tempo, me desgostaria sobremaneira ver-me obrigado por esta minha réplica e queixa (que agora poderá escutar) a tocar publicamente, ainda que sem ferir, este seu bom nome e reputação.

"Tenho aversão pelas idéias de Calvino"

A respeito de minha doutrina, ensinei fielmente e Deus me deu a graça de escrever. Fiz isso de modo mais fiel possível e nunca corrompi uma só passagem das Escrituras, nem conscientemente as distorci. Quando fui tentado a requintes, resisti à tentação e sempre estudei a simplicidade. Nunca escrevi nada com ódio a alguém, mas sempre coloquei fielmente diante de mim o que julguei ser a glória de Deus.

"Se ele fosse meu contemporâneo, eu o amaria com amor cristão, mas seria seu ferrenho opositor e o resistiria na cara, como Paulo resistiu ao apóstolo Pedro na cara, quando por um instante este último se tornou repreensível (Gálatas 2:11)."

Onde os homens amam a disputa, estejamos plenamente certos de que Deus não está reinando ali.

"Bom, quero explicar meu problema com Calvino"

Só porque afirmo e mantenho que o mundo é dirigido e governado pela secreta providência de Deus uma multidão de homens se ergue contra mim alegando que apresento Deus como sendo o autor do pecado.


"A Bíblia, a Palavra escrita de Deus serve-nos para que todo homem conheça o coração de Deus, que é puro amor."


Não será bastante que formulemos uma vaga idéia de Deus, senão que que temos que discernir quem é o Deus verdadeiro. Que proveito teríamos em inventar um ídolo, e em seguida atribuir-lhe a glória divina? Não podemos compreender plenamente a Deus em toda a sua grandeza, mas há certos limites dentro dos quais os homens devem manter-se, embora Deus acomode à nossa tacanha capacidade toda declaração que Ele faz de si mesmo. Portanto, somente os estultos é que buscam conhecer a essência de Deus.

"Está escrito que Ele é Amor, todavia Calvino não enxergou isto, não alcançou isto, e criou ensinos frios, gelados e de uma profunda insensibilidade"

O amor que Deus nutre por nós é sem paralelo. Não há nada no mundo inteiro que nos faça cair em desespero, seja o que for e seja qual for a oposição que se nos faça, se estivermos plenamente persuadididos de sermos amados por Deus. Deus jamais encontrará em nós algo digno do seu amor, senão que Ele nos ama porque é bondoso e misericordioso. Que outra coisa poderá Deus encontrar em nós, que o induza a amar-nos, a não ser aquilo que Ele já nos deu?

Deve observar-se que somos convidados ao conhecimento de Deus, não àquele que, contente em vã especulação, simplesmente voluteia no cérebro, mas àquele que, se é de nós retamente percebido e finca pé no coração, haverá de ser sólido e frutuoso. Ora, nosso saber não deve ser outra cousa senão abraçar com branda docilidade e, certamente sem restrição, tudo quanto foi ensinado nas Santas Escrituras. Só conhecemos verdadeiramente a Deus em nossa alma quando nos rendemos a ele, quando nos submetemos à Sua autoridade e quando os seus preceitos e mandamentos regulam todos os pormenores de nossa vida.


"Calvino jamais descortinou o coração de Deus. Passou longe dele."


Deus, ao criar o homem, deu uma demonstração de sua graça infinita e mais que amor paternal para com ele, o que deve oportunamente extasiarnos com real espanto; e embora, mediante a queda do homem, essa feliz condição tenha ficado quase que totalmente em ruína, não obstante ainda há nele alguns vestígios da liberalidade divina então demonstrada para com ele, o que é suficiente para encher-nos de pasmo.

"Dizem que quem não tem um pai amoroso aqui na terra, tem dificuldade de entender o Pai Amoroso que temos no céu. Transferem o referencial da terra para o céu e Aquele Pai torna-se um Juiz com um enorme dedo apontando para a pessoa. Não sei se foi isso que aconteceu com Calvino, pois o Pai que ele descortinou na Palavra, é frio, insensível e até maldoso."

Com que confiança, de outra sorte, Pai chamaria alguém a Deus? Quem a isto de temeridade prorromperia, que a si usurpasse a honra do Filho de Deus, salvo se houvéssemos sido em Cristo adotados por filhos da graça, Cristo, que como seja o verdadeiro Filho, dado nos foi de Si próprio por irmão, para que o que próprio tem Ele de natureza nosso se faça por benefício de adoção, se com fé segura abraçarmos tão grande benevolência. O espantoso poder de Deus se exibe quando somos trazidos da morte para a vida e quando, sendo nós filhos do inferno, somos transformados em filhos de Deus e herdeiros da vida eterna.

Davi não podia descobrir nenhuma outra causa pela qual pudesse valer-se da paternidade divina, senão que Deus é bom, e desse fato segue-se não há nada que induza Deus receber-nos em seu favor senão o Seu próprio beneplácito. Embora a bondade divina às vezes se mantenha oculta e, por assim dizer, sepultada à vista humana, ela jamais poderá ser extinta.


"Se fosse um advogado de defesa e Calvino o promotor, derrotaria facilmente seus argumentos usando tão somente o profundo amor de Deus pelo homem, coroa de sua criação."

Orgulho e autoglorificação é a causa e o ponto de partida de todas as controvérsias, quando cada um, reinvindicando para si além de sua capacidade, está ávido para ter outros sob seu poder.

"Certa vez, estando numa cidade a negócios e tendo que passar o domingo por lá, peguei um táxi e pedi que o motorista dele me levasse numa 'igreja dos crentes'. O homem o fez (não é o caso de dizer em qual ele parou), entrei e sentei num dos últimos bancos. Enquanto orava de cabeça abaixada, alguém me tocou e amorosamente me levou mais para frente. Na pregação, na ausência do titular, um obreiro assumiu. Tropeçava no português e com certeza nunca fez uma faculdade de teologia. Mas...Pregou chorando do começo ao fim da palavra. Falou do amor de Deus pelo homem, descortinando de tal maneira Seu coração, que eu diria que, não ficou no meu coração o ensino, mas sim a profunda impressão. Ficou sentimento. Ficou aquela coisa de saber que se é profundamente amado pelo Pai."

O Espírito está unido à Palavra, porque, sem a eficácia do Espírito, a pregação do evangelho de nada adiantará, mas permanecerá estéril.

"De outra feita, fui à outra igreja em outra cidade, que também não é o caso de dizer o nome, mas por sinal, isto se pode dizer com certeza, uma das mais acirradas denominações seguidoras da doutrina calvinista. Sentei atrás e ninguém me tocou e nem me convidou para ir para frente. Aliás, nem notaram minha presença. O pregador? Um teólogo, o pastor titular. Meu Senhor, que frieza, que emaranhado de idéias! Que distância do coração de Deus."


Não existe nada de grandioso em alguém ser adepto de uma elocução fluente quando o tal nada emite senão sons vazios. É quase impossível exagerar o prejuízo causado pela pregação hipócrita, cujo único alvo é a ostentação e o espetáculo vazio. Os cristãos deveriam detestar aqueles que tem o evangelho nos lábios, mas não em seus corações.

"Não se trata de argumentos, mas de sentimentos. É questão de saber quem melhor interpretou ou ainda interpreta, não as palavras em si, mas os sentimentos de Deus manifestado nas palavras que Ele nos deixou."

De nenhum efeito é a Palavra sem a iluminação do Espírito Santo. O Espírito de Deus, de quem emana o ensino do evangelho, é o único genuíno intérprete para no-lo tornar acessível. É Ele que nos ilumina com Sua luz para nos fazer entender as grandezas da bondade de Deus, que em Jesus Cristo possuímos. Tão importante é o Seu ministério que com justiça podemos dizer que Ele é a chave com a qual são abertos para nós os tesouros do reino celestial, e que sua iluminação são os olhos do nosso entendimento, que nos habilitam a contemplar os mencionados tesouros.

"Ainda bem que a coisa não é com ele, e é por isso que vejo em cada ser humano, por mais miserável que seja a sua situação, um alvo certo do amor do meu Deus, que só não irá aos céus, se não quizer."

O acesso à salvação a ninguém é vetado, por mais graves e ultrajantes sejam os seus pecados. Deus tem no coração a salvação de todos os homens, porquanto Ele chama a todos os homens para o conhecimento de sua verdade. Visto que a pregação do evangelho traz vida, o apóstolo corretamente conclui que Deus considera a todos os homens como sendo igualmente dignos de participar da salvação.


Observemos aqui que a vontade humana é em todos os aspectos oposta à vontade divina, pois assim como há uma grande diferença entre nós e Deus, também deve haver entre a retidão e a depravação. Quando a alma se encontra envolta em desejos carnais, busca sua felicidade nas coisas desta terra. Pelo pecado estamos alienados de Deus.

Em toda a Escritura se faz evidente que não existe outra fonte de salvação exceto a graciosa mercê divina. É deveras verdade que é unicamente Deus que salva e que nem mesmo uma ínfima porção de Sua glória é transferida para os homens. Nossa salvação é dom de Deus, visto que emana exclusivamente dele e é efetuada unicamente pelo Seu poder, de modo que Ele é o seu único Autor.

Genebra, inverno de 1539.

Seu conservo em Cristo,

João Calvino
PS.: As respostas de Calvino foram retiradas de seus escritos.

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