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16 maio 2007

A doutrina é mesmo importante?

Meus netos, então com dez e seis anos de idade, ao descobrir que a tia ia dar à luz uma menina, tiveram uma reação imediata de repugnância, com um alto e claro "Eca!". Quando a garotinha linda nasceu, a mãe dos meninos os levou ao hospital para conhecerem a prima recém-nascida. Eles não viam a hora de segurá-la, e se revezaram pegando-a no colo várias vezes. Na verdade, nenhum dos dois queria deixar o outro carregar a menina. Ao saírem do hospital, dirigindo-se para o carro, os dois disseram para a mãe: "Essa menininha é dez!". O que aconteceu com o "eca"?

Muitos cristãos reagem da mesma forma à doutrina por não terem experimentado o encanto e a emoção de entender as doutrinas, ou seja, os ensinamentos da palavra maravilhosa de Deus; porque nunca as adotaram nem interagiram com elas. Infelizmente, a doutrina está passando por tempos difíceis. Não é algo novo ou exclusivo da nossa época. Preste atenção neste lamento de um pastor proeminente do século XIX:

Em que os pastores evangélicos ficam aquém de seus antecessores do século XVIII? Na doutrina. Não são tão completos, nem tão marcantes, nem tão firmes. Temem declarações enérgicas. Estão prontos demais a cercar, proteger e qualificar todos os seus ensinamentos. (J. C. RYLE, Christian Leaders of the Eighteenth Century, p. 430.)

Mais de um século depois, um teólogo avaliou (a meu ver corretamente) o cenário moderno da seguinte maneira:

A nova busca pelo pragmatismo contemporâneo transformou a natureza do ministério cristão, o trabalho dos seminários e o funcionamento interno das lideranças denominacionais. Em todos eles, a transformação prenuncia a morte da teologia. [...] As editoras que apóiam as publicações teológicas vêem seus recursos diminuírem continuamente. (David WELLS, "Seminaries and the Death of Theology". The Dallas/Forthworth Heritage, janeiro de 1999, p. 34, 49.)

Qualquer um que folhear os catálogos de livros da atualidade percebe logo como essa observação é verdadeira. A proporção de livros doutrinários é pequena em relação à infinidade de outras categorias de publicações.

ALGUMAS JUSTIFICATIVAS (DESCULPAS!) PARA A NEGLIGÊNCIA NA DOUTRINA

É provável que a objeção mais comum para expor a doutrina seja a falta de relevância. A experiência é mais importante. Em outras palavras, a doutrina não é prática. Ao longo da vida, participei de um sem-número de cultos em capelas de seminários. Pouca coisa me incomoda mais do que ouvir o pregador dizer: "Hoje vou falar sobre algo totalmente prático. Deixo os ensinamentos (a doutrina) ao encargo dos professores". Que declaração mais superficial! Esse pregador (e muitos outros) se esquece de que toda a prática deve ser baseada em doutrinas bíblicas sólidas e que se espera que toda doutrina bíblica resulte em práticas corretas. A sã doutrina e as experiências bíblicas precisam andar juntas. Não se deve ter uma sem a outra.

Relevante significa "que tem relação significativa e demonstrável com o assunto em questão". Prático quer dizer "relacionado à prática". Quem alega que a doutrina não é relevante nem prática usa esses dois termos indevidamente e pressupõe que a própria Bíblia (da qual provém a doutrina) não é relevante nem prática. É evidente que ninguém diria isso da Palavra de Deus — pelo menos não em voz alta. Não podemos nos esquecer do que a Bíblia afirma sobre si mesma: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino [extremamente doutrinária], para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça [extremamente relevante], a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra [extremamente prática]" (2Tm 3:16-17). A palavra traduzida por perfeito significa "proficiente e capaz de cumprir todas as exigências impostas à sua vida". Juntando a ênfase desses dois versículos, vemos que ensinam claramente que a doutrina bíblica, além de relevante e prática, também fornece a proficiência necessárias à vida e as atividades do cristão. O que não falta é relevância e praticidade.

Convém lembrar de que modo Paulo utilizou a doutrina como base para o estilo de vida correto. Em Romanos, carta escrita a uma igreja com a qual ele havia tido pouco contato até então, os onze primeiros capítulos são repletos de doutrina cristã (pecado, salvação, santificação e escatologia). A partir do capítulo 12, ele exorta e aconselha sobre particularidades necessárias para a vida piedosa. Pode-se observar claramente essa mesma ordem em Efésios (a doutrina, nos caps. 1—3; a prática, nos caps. 4—6), em Colossenses (a doutrina, nos caps. 1—2; a prática, nos caps. 3—4) e, de modo menos evidente, em suas outras cartas (cf. 1Coríntios, Filipenses, 1—2Tessalonicenses).

Outra desculpa para negligenciar a doutrina advoga que não devemos impor os ensinamentos doutrinários uma vez que é difícil entendê-los. Somos aconselhados a "colocar as guloseimas na prateleira mais baixa". É um bom conselho para certas ocasiões e para alguns tipos de público. Imagine, porém, o que aconteceria se o seguíssemos sempre. Formaríamos cristãos corcundas! Lembre-se de como os bebês crescem. Eles se apóiam nas mãos e nos joelhos e engatinham; depois, tentam se levantar usando um ponto de apoio e, finalmente, sozinhos. Para poderem locomover-se sozinhos, precisam exercitar-se, esticar-se e tentar alcançar objetos em lugares mais altos. O mesmo acontece com os cristãos. A fim de nos fortalecer, precisamos nos exercitar e nos esticar. Para promover esse processo, nós que ensinamos não devemos colocar as guloseimas sempre na prateleira mais baixa.

Sem dúvida, algumas doutrinas são mais difíceis de compreender. Mas isso não deve nos impedir de explorar as áreas mais complexas dentro dos limites das Escrituras. Devemos amenizar a doutrina do nascimento virginal só porque não entendemos plenamente como ele se deu? Ou devemos ignorar a declaração sumária da doutrina de Cristo em 1Timóteo 3:16, que inclui referências à sua encarnação, ressurreição e ascensão?

"Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestadona carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregadoentre os gentios, crido no mundo, recebido na glória."

Se, como tudo indica, esse texto fazia parte de um hino cristão primitivo, também fazia parte do culto. Além disso, outras facetas do Deus-homem, da morte de Cristo e de sua ressurreição física incluem mistérios que jamais compreenderemos plenamente. Evitar esses ensinamentos, porém, é matar de fome pessoas que precisam se alimentar da sã doutrina para amadurecer.

No campo da profecia, às vezes se tem a impressão de que é um tema complicado e controverso demais para o público, e que deve, portanto, ser evitado. Porém, muitos aspectos da profecia são simples e claros. Apocalipse 6:4, por exemplo, tem 33 palavras [tomando-se a versão Almeida Revista e Atualizada como referência]. Dessas 33 palavras, somente quatro têm três sílabas, e apenas uma tem quatro sílabas. As outras 28 têm uma ou duas sílabas e todas são de fácil compreensão. A palavra "unigênito" em João 3:16 é muito mais difícil de explicar do que a maioria das palavras em passagens proféticas.

No crescimento cristão, como afirma Hebreus 5:12-14 ("Mas o alimento sólido é para os adultos, para aqueles que, pela prática, têm as suas faculdades exercitadas para discernir não somente o bem, mas também o mal" Hb 5:14), o leite é apropriado para o estágio da infância, mas o alimento sólido é necessário para a maturidade. Nessa passagem, o autor deixa claro que o alimento sólido capacita o cristão a usar a Palavra para discernir entre o bem e o mal. Ao conhecer as verdades profundas da Bíblia, podemos praticar a retidão. A verdade bíblica é ao mesmo tempo relevante e prática para a vida cristã.

Uma terceira desculpa para não enfatizar a doutrina é que ela divide os cristãos. Isso é verdade, mas não constitui motivo legítimo para evitar o estudo e a compreensão da doutrina bíblica. Há muitos temas que dividem igrejas e cristãos. Um assunto controverso nos dias de hoje é a variedade de estilos de culto — música, grupos de louvor etc. E por que existem diversas denominações? Simplesmente porque grupos de pessoas entendem certos ensinamentos da Bíblia de formas distintas e consideram essas distinções importantes o suficiente para constituir uma denominação. Existem, por exemplo, pontos de vista diferentes acerca do batismo; ou que dons espirituais estão em vigor nos dias de hoje; ou ainda as diferentes formas de governo eclesiástico que refletem interpretações diversas de várias doutrinas. Se as divisões estão erradas, então, pela lógica, devemos todos voltar à Igreja Católica Romana. Ou, na verdade, devemos voltar à igreja do primeiro século. Mas até mesmo naquela época havia divisões. Lembramos imediatamente da igreja de Corinto, que sofreu divisões por causa de estilos de ministério (1Co 1:12-13), de ensinamentos fundamentais referentes à ressurreição corporal de Cristo (1Co 15) e do uso apropriado da disciplina eclesiástica (2Co 2:5-11). No entanto, Paulo disse à igreja: "Porque até mesmo importa que haja partidos entre vós, para que também os aprovados se tornem conhecidos em vosso meio" (1Co 11:19). Partidos significa "grupos que escolhem determinados conceitos", que farão os aprovados por escolherem o conceito correto se destacarem dos outros.

Convém lembrar, também, do desacordo e da separação evidentes entre Paulo e Barnabé quanto a levar João Marcos com eles na segunda viagem missionária (At 15:36-40). Esse desentendimento resultou de uma diferença de opiniões quanto à qualificação ou maturidade de Marcos, e cada lado acreditava estar certo. Nesse caso, Deus usou o desacordo para enviar dois grupos missionários em vez de um.

Não é necessariamente errado haver divisão entre os cristãos. É admissível, mas nem sempre. Precisamos lembrar que as diferenças doutrinárias também promovem união, e, com freqüência, isso é bom. Nossa responsabilidade é estudar, aprender, ensinar e pregar a doutrina bíblica em sua totalidade. Aprendê-la e vivê-la.

A DOUTRINA É IMPORTANTE E PRÁTICA

A doutrina serve de alicerce para a vida cristã e de motivação para a atividade cristã. O chamado para a consagração total de nossa vida tem como base a doutrina segundo a qual fomos crucificados com Cristo (Rm 6:1-13). Sabendo que Deus não é parcial, não devemos dar tratamento preferencial nem a ricos nem a pobres na igreja (Tg 2:1-4). A esperança na volta do Senhor deve purificar nossa vida (1Jo 3:3). É pelo amor de Cristo (o amor dele por nós e o nosso por ele) que o deixamos controlar nossa vida (2Co 5:14). Ao conhecer a doutrina do julgamento futuro somos motivados a persuadir as pessoas a aceitarem Cristo (2Co 5:10). Todas essas responsabilidades cristãs importantes são baseadas em verdades doutrinárias.

Só pela verdade podemos detectar os ensinamentos falsos e os estilos de vida incorretos e nos opor a eles. Os comportamentos relacionados em 1Timóteo 1:8-10 (rebeldia, impiedade, mentira, homossexualidade etc.) se opõem "à sã doutrina".

Ao nos aproximarmos do fim dos tempos, torna-se cada vez mais importante conhecer a sã doutrina, a fim de não oferecer às pessoas o que elas desejam ouvir para sentir coceira nos ouvidos em vez do que precisam ouvir para que não sejam desviados da verdade da Palavra de Deus (2Tm 4:1-4). Ensinar (doutrinar) os convertidos é parte necessária do cumprimento da Grande Comissão (Mt 28:19).

"... ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado".

Observe a ênfase dupla: "ensinar" (doutrina) e "guardar" (prática).

Sã doutrina significa, literalmente, doutrina saudável; assim, aprender, ensinar e pregar a doutrina promove o bem-estar e a integridade dos cristãos. A mesma palavra usada em 3João 2 para a saúde física é empregada nas cartas pastorais para a doutrina espiritualmente sadia (1Tm 4:13,16; 5:17; 2Tm 1:13; 4:3; Tt 1:9,13; 2:1,7). Diante desses versículos, quem ousaria sugerir que a doutrina não é prática? Observe que algumas dessas passagens são dirigidas a Timóteo; mas também se aplicam de maneira especial a pastores e líderes (1Tm 4:13,16; Tt 2:1,7).

Algumas implicações práticas e importantes resultam da relevância da doutrina. Em primeiro lugar, é preciso entender que toda pessoa tem um sistema doutrinário, mesmo que não se dê conta desse fato ou não o admita. Pode ser algo sistemático, desorganizado ou até mesmo desleixado, mas todos nós operamos com base em algum esquema doutrinário. É evidente que tanto o ateu liberal e o agnóstico quanto os calvinistas e os arminianos mais estruturados têm seus sistemas. Por isso, o pregador e o professor, o profissional e o leigo precisam ler sobre teologia não importa o tipo, lugar ou nível de seu serviço.

Em segundo lugar, jamais devemos menosprezar a importância da semântica. Quantas vezes ouvi um aluno tentando racionalizar uma declaração medíocre ou inexata dizendo: "É só uma questão de semântica". Esse tipo de resposta serve, supostamente, de desculpa para a escolha de uma palavra imprecisa, desleixada e, por vezes, incorreta. Esse aluno está mais certo do que imagina quando diz que é uma questão de semântica, pois tudo o que dizemos e escrevemos e até o que pensamos é de caráter semântico. A semântica compreende o estudo dos significados das palavras; portanto, as palavras que empregamos afetam o significado que estamos tentando expressar. Assim, ao estudar, pensar, ensinar, pregar e viver a Palavra de Deus, devemos cuidar para que as palavras que usamos na comunicação sejam precisas, claras e corretas.

Gostaria de concluir com um fato que exige reflexão séria: aquilo que ensino hoje se tornará parte da formação de pessoas, igrejas e missões amanhã. Uma vez que a doutrina das Escrituras é tão importante e relevante, como comunicá-la de modo a gravar na mente e no coração e manifestá-la em nossa vida? É o que veremos a seguir.

5 comentários:

Dri disse...

Clóvis,

Excelente texto!

Infelizmente é a realidade da era atual. Poucos pastores estão realmente comprometidos com a a sã doutrina.
Esse pragmatismo que tem invadido as igrejas, defendendo a tese de que aquilo que funciona e serve para resolver os problemas é o que de fato tem valor. Mas, considerando que cada caso é um caso, e que algo pode ser funcional aqui e não ali, fica subentendido que a verdade é relativa, deixando de lado os princípios absolutos, dessa forma o pragmatismo dá as mãos ao pluralismo e o que temos como resultado disso, é essa 'Teologia' descomprometida com o Evangelho genuíno e a sã doutrina, tão defendida pelos apóstolos.

Hoje, o que interessa é que o público ouça aquilo que lhe agrada, aquilo que lhe convêm e que sirva para resolver seus problemas do dia-a-dia.

"Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo grande desejo de ouvir coisas agradáveis, ajuntarão para si mestres segundo os seus próprios desejos," II Tm 4:3


Deus te abençoe,


Bjinhus,


Dri

W. Magalhães disse...

Gostei muito Clóvis.

O texto inspira e me faz pensar que tipo doutrina está sendo ensinada pelos líderes mundo afora e vivida por mim hoje.

Com tantos líderes negociando a Palavra e atendendo os desejos imediatos do povo ao invés de suas reais necessidades, parece simplesmente que a doutrina mudou de identidade. Ela, que revela o caráter de Deus, parece estar, ela mesma, sendo descaracterizada.

Nesse mundo estranho eu espero continuar "antiquado" e oro a Deus por você e seu ministério, e para que Deus envie mais pessoas fiéis ao ensino do evangelho eterno - e por isso mesmo, imutável.

Abraço e fique na paz perfeita.

Wanderson

W. Magalhães disse...

Gostei muito Clóvis.

O texto inspira e me faz pensar que tipo de doutrina está sendo ensinada pelos líderes mundo afora e vivida por mim hoje.

Com tantos líderes negociando a Palavra e atendendo aos desejos imediatos do povo ao invés de suas reais necessidades, parece simplesmente que a doutrina mudou de identidade. Ela, que revela o caráter de Deus, parece estar, ela mesma, sendo descaracterizada.

Nesse mundo estranho eu espero continuar "antiquado" e oro a Deus por você e seu ministério, e para que Deus envie mais pessoas fiéis ao ensino do evangelho eterno - e por isso mesmo, imutável.

Fique na paz perfeita.

Wanderson

José Soares disse...

Clóvis, belo artigo!
É extremamente lamentável observar como os púlpitos de muitas igrejas foram transformados em palco, onde ocorrem cantorias intermináveis pelos ditos "levitas cristãos" que são até mesmos endeusados pelos ouvintes. A centralidade da Palavra de Deus foi deixada de lado e o que vejo hoje é uma geração de cristãos não mais ouvintes nem tampouco praticantes da Palavra, mas egocêntricos, preocupados consigo mesmos. Vão à igreja para receber e não para adorar a Deus. Isso é lamentável.
Que Deus o abençoe muito.
José Soares.

José Soares disse...

Clóvis, graça e paz.
Seu texto é muito esclarecedor.
Infelizmente, vivemos tempos trabalhosos. Em muitas igrejas o púlpito foi feito palco onde muitos cantores entretem o povo com suas cantorias intermináveis em detrimento da pregação da Palavra de Deus. E isso com o consentimento de muitos pastores.
Não se vê mais interesse pela doutrina bíblica e sim pelas músicas, danças e coreografias. Isso é lamentável. Necessário se faz seguir o exemplo do salmista que disse: "Oh! quanto amo a tua lei! É a minha meditação em todo o dia " (Sl 119.97).
Que Deus o abençoe muito.

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