Já tem uma conta?

Translate this blog

Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons nas seguintes condições: você pode copiar, distribuir e utilizar livremente, desde que cite a autoria com link para o artigo neste blog, não o utilize com finalidade comercial e não faça modificações no conteúdo.

23 outubro 2008

Falar em línguas sem interpretação

Meu confrade pentecostal Cleber Cabral Siedsclhag escreveu um interessante artigo intitulado "Sim! É Lícito Falar em Línguas sem Interpretação!", no qual, como se pode depreender do título, defende a posição de que mesmo que não haja interpretação as línguas podem ser exercitadas livremente no culto.

Seus argumentos positivos são históricos e teológicos. Segundo ele
"o dom de línguas era manifestado livremente na Rua Azusa (com ou sem interpretação)" e "desde seu início, o pentecostalismo pratica o falar em línguas mesmo sem interpretação, como aconteceu em Atos 2". O autor argumenta também que o erro corintiano era que "faziam cultos públicos inteiros só com línguas estranhas, sem nada que edificasse os demais (pregação, profecia, revelação, etc)", baseando-se para isso em 1Co 14:6,19,23. Sua conclusão dessas passagens é de que Paulo combateu o erro "de se fazer um culto dirigido inteiramente em línguas estranhas!". Por isso ele afirma convictamente que hoje "nenhuma igreja pentecostal comete o erro de Corinto".

Os seus argumentos negativos são de que
"dos 9 dons espirituais listados em 1Coríntios 12 o único que não possui nenhum caso registrado no NT é dom de interpretação", o que demonstra que o mesmo não é indispensável para falar em línguas. Finalmente, o autor contrapõe a teologia pentecostal à reformada, dizendo da primeira que "nós pentecostais podemos nos alegrar muito por nossa prática e nossa teologia histórica", advertindo quanto à segunda "não se deixe levar por regras humanas que não tem outro efeito senão atrapalhar o mover de Deus".

Nas minhas considerações sobre o tema e os argumentos do autor, que fique claro que não há nenhum demérito à sua pessoa ou à teologia que esposa. Contra-argumento de uma perspectiva pentecostal, pois creio no batismo com o Espírito Santo como experiência distinta da conversão e na atualidade dos dons espirituais, inclusive o de curas e o de falar em outras línguas. Mas creio que seja salutar que haja ordem no exercício dos dons espirituais.

Os seus argumentos históricos, se provam alguma coisa, é somente que os pentecostais primitivos falavam em línguas indepentemente de haver interpretação. Porém, em relação às orientações bíblicas, os "primitivos" estão separados por 18 séculos, portanto, o pentecostalismo deve ser sempre considerado um movimento moderno (não estou negando a atualidade dos dons nos períodos antecedentes, apenas destacando que como movimento, o pentecostalismo é recente na história da igreja). Portanto, se na Rua Azusa se falou em línguas sem interpretação, isto não torna a prática bíblica ou aceitável, mas deve ser tributado aos exageros que sempre marcam os períodos iniciais dos movimentos religiosos.

Mas o ponto principal a ser considerado é a natureza do erro que Paulo corrigiu. Segundo meu irmão Cleber, a igreja de Corínto fazia cultos inteiros apenas em línguas e Paulo interviu com o objetivo de equilibrar as coisas, sugerindo que outros dons tivessem lugar na liturgia. Não creio que este seja o caso. Isto fica claro, por exemplo, quando ele pergunta
"falam todos em outras línguas?" (1Co 12:30). É uma pergunta retórica e a resposta óbvia é um enfático "não!". A mesma pergunta ele faz sobre outros ministérios e dons, tais como apóstolo, profetas, doutores, operadores de milagres, dons de curar e de interpretações. Portanto, o contexto aponta para uma diversidade de dons e não para a monotonia do dom de línguas.

Além disso, Paulo escreve
"quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação" (1Co 14:26). O verbo εχει (ter) está no presente do indicativo, portanto não é uma ordem dada pelo apóstolo, mas a constatação do fato de que havia uma diverdade de dons em Corinto. A orientação é dada em seguida, quando diz "seja tudo feito para edificação". Embora houvesse uma supervalorização do dons de línguas, isto se dava na forma de que aqueles que falavam se consideravam ou eram considerado mais espirituais que os outros. Por isso Paulo logo tirou a ênfase dos que exercitavam os dons (πνευματικα) e colocou em quem soberanamente distribui os dons (χαρισματων). A desordem no culto não era falta de dons, mas falta de organização na hora de exercitá-los, com todos falando ao mesmo tempo e alguns falando numa linguagem ininteligível.

Outra indicação de que Paulo não estava repreendendo a igreja por falar exclusivamente em línguas é que ele chama a atenção para a falta de ordem no exercício do dom de profecia. Homens profetizavam com a cabeça coberta e mulheres com a cabeça descoberta (1Co 11:4-5) e mais de um profeta falava ao mesmo tempo (1Co 14:29-31). A mesma correção aplicada por Paulo quanto ao exercício do dom de línguas também foi aplicada ao exercício do dom de profecia. Portanto, haviam os dois dons sendo manifestado nos cultos, e ambos exercitados com falta de ordem.

A ordem que o apóstolo impôs à igreja quanto ao dom de línguas era
"que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete" (1Co 14:27). O fato de que Paulo limitou o número de pessoas falando em línguas à igreja em duas ou no máximo três pessoas e que estas deveriam falar uma após a outra é inegável. A outra condição sine qua non era que houvesse interpretação. Não dá de interpretar de outra maneira esse verso sem volteios e violências ao texto.

Na falta de intérprete somente duas alternativas são dadas. A primeira é
"o que fala em outra língua deve orar para que a possa interpretar" (1Co 14:13). Deus distribui o seus dons soberanamente (1Co 12:11), mas pedir um dom para melhor edificar a igreja não é pecado de presunção, mas demonstração de amor pelo povo de Deus. A outra alternativa é falar em línguas devocionalmente, ou em letras paulinas "não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus" (1Co 14:28). Não vejo problemas se um pregador, por exemplo, dirigir expressões de louvor a Deus em línguas, desde que não pregue em línguas. Como não vejo problema se alguém orar a Deus em línguas, num momento de orações expontâneas, desde que o faça num tom de voz que não impeça os demais de fazerem suas orações e ouvirem as orações feitas em linguagem compreensível por todos.

Finalmente, a comparação desfavorável entre as teologias pentecostal e reformada é ruim para ambos os lados. Pois nós pentecostais podemos desfrutar do melhor da teologia reformada, seguindo o exemplo de muitos reformados que estão experimentando a realidade dos dons espirituais. Como pentecostal e calvinista, entendo que é necessário construir pontes e não alargar fossos entre as duas tradições que são, cada uma em suas ênfases próprias, igualmente ricas e proveitosas. Por que ficar com uma ou outra quando podemos ter ambas?

17 comentários:

Cleber disse...

Mano,
só uma observação: no meu texto não disse que todos falavam em línguas, mas que o culto era dirigido inteiramente em línguas. Só pra esclarecer.

Sobre haver outros dons realmente merece análise. Meu texto é uma tese pessoal.

Vale dizer que a posição pentecostal clássica fala tbm em supervalorização do dom de línguas, mas chama atenção que as regras sobre o dom de interpretação

não foram aplicadas em nenhum dos casos do livro de Atos. Ou seja, são regras locais.

Um abraço!

Pr Cleber.

Clóvis disse...

Cleber,

Paz em Cristo. Obrigado pelo seu comentário e pelo esclarecimento.

Sobre o dom de interpretação em Atos, convém lembrar que o livro de Atos é primeiramente histórico e não normativo. Além disso, ausência de evidência não é evidência de ausência.

Em Cristo,

Clóvis

Daniel Grubba disse...

Olá Cleber,

Você escreveu: creio no batismo com o Espírito Santo como experiência distinta da conversão.

Tenho algumas dúvidas:

Isto significa que existem dois grupos distintos em nosso meio? Batizados e não-batizados?

Se sim, qual é a evidência do batismo do Espírito Santo? Seria orar em línguas?

E quanto ao texto de I Co. 12.13 (Pois todos nós fomos batizados em um Espírito...)muito usado pelos reformados como evidência do batismo sem distinção?

Abraços,
Daniel Grubba

Clóvis disse...

Daniel,

Paz!

"Isto significa que existem dois grupos distintos em nosso meio? Batizados e não-batizados?"

Sim, em se tratando de batismo com o Espírito Santo, há pessoas batizadas e não batizadas na igreja.

"...qual é a evidência do batismo do Espírito Santo? Seria orar em línguas?"

Não. Diferentemente do pentecostalismo tradicional, creio que não é necessária evidência física inicial do batismo com o Espírito Santo.

"E quanto ao texto de I Co. 12.13 (Pois todos nós fomos batizados em um Espírito...)muito usado pelos reformados como evidência do batismo sem distinção?"

Entendo, até melhor estudo, que se trata do batismo de todo crente no Corpo de Cristo. Neste batismo, todos os crentes são batizados.

Em Cristo,

Clóvis

Daniel Grubba disse...

Obrigado pelas respostas Clóvis.

Na verdade fico um pouco incomodado com o tratamento diferencial dado aos batizados com o Espírito na minha igreja(entendem que são aqueles que oram em línguas).Por exemplo, ficha de inscriçao para entrar em algum ministério da igreja, perguntam: Você é batizado no Esp.?

Eu nunca soube responder porque durante meus primeiros anos de conversão nunca orei em línguas. E sempre ensinam que este é a marca distintiva. Portanto, na sua concepção, que não é pentecostal tradicional, como alguém sabe que é batizado?

Um outro ponto que estranho, é que nossa alma católica (parafraseando Dr. Nicodemus) tende a rotular alguns como dotados de maior espiritualidade e autoridade divina (e os batizados estão no rol, ou aqueles que oram em línguas).

Quanto a estudos sobre este tema, gostei muito da explicação do reformado Wayne Grudem em sua telogia sistemática. Achei muito equilibrado.

Grande abraço,
Daniel

Clóvis disse...

Daniel,

Embora pentecostal, a principal crítica a que este sistema se expõe é o de possibilitar a existência de duas classes de crentes: os batizados e os não batizados. Isto na prática, pois creio que a vontade de Deus é que todos os que foram regenerados sejam também batizados com o Espírito Santo.

Graças a Deus, em minha igreja não se dá tanta ênfase ao falar em línguas e assim praticamente não se nota dois grupos na igreja.

Agora, na admissão ao ministério ordenado, são feitas duas perguntas e embora eu fique incomodado com uma, a outra considero totalmente despropositada: você é batizado com o Espírito Santo? Você é dizimista? Não creio que Deus tenha dado o Batismo com o Espírito Santo com a finaldiade de fazer distinções no corpo de Cristo. Já quanto ao dízimo... sem comentários. Eu sempre me pergunto: porque não ficar com as qualificações para o ministério prescritos nas pastorais?

Eu creio que o falar em línguas pode ocorrer no momento do falar em línguas, mas não é prova requerida nem sinal necessário do mesmo. Também não acho que que se deva pedir ou ostentar provas do batismo. Creio que se for para recorrer a uma prova, basta o exercício dos dons. Qualquer um deles.

Rotular alguém mais espiritual porque tem determinado dom é um erro, crasso, por sifnal. Os dons não são dados para chancelar espiritualidade, mas para atender necessidades da igreja.

Finalmente, eu "monto" no Grudem, cuja TS considero a melhor em Língua Portuguesa, e tenho uma dezena delas. Mas como ninguém é perfeito, ele não crê na sucedância do batismo com o Espírito Santo :-)

Em Cristo,

Clóvis

Clóvis disse...

Daniel,

Cometi a seguinte frase:

"Eu creio que o falar em línguas pode ocorrer no momento do falar em línguas..."

Parece língua estranha, mas é apenas erro. Substitua o segundo falar em línguas por batismo com o Espírito Santo e você estará interpretando...

Em Cristo,

Clóvis

Daniel Grubba disse...

Obrigado pelos esclarecimentos.
É sempre edificante refletirmos sobre estes temas polêmicos.

Quanto a Grudem, realmente para ele batismo no Espírito é universal, no evento da conversão conforme I Co 12.13. O que se segue ápós em eventos distintos é uma experiência definida como "enchimento do Espírito Santo". Acabei de ler um manual de teologia sistemática de Zacarias Severa, e também defende a mesma idéia.

Até mais,
Daniel

Daniel Grubba disse...

Uma outra preocupaçao Clóvis, é o abuso dos dons de línguas na minha igreja. Naqueles momentos do "derramar da uncão", o pastor pede para todo mundo orar em línguas, e náo preciso nem dizer a bagunça que vira, né? Nestes momentos fico pensando nos visitantes e na passagem de I Co 14.23 - "Se, pois, toda a igreja se reunir num mesmo lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão porventura que estais loucos?" (Minha igreja recebe muitos vizitantes por culto).

Eu fico pensando: Será que eu sou o quadrado, geladão, sorveteriano ou realmente precisamos de mais equilíbrio e moderação?

Abçs,
Daniel

Clóvis disse...

Daniel,

"Uma outra preocupaçao Clóvis, é o abuso dos dons de línguas na minha igreja."

Se serve de consolo, não é só na sua igreja. Infelizmente.

"Eu fico pensando: Será que eu sou o quadrado, geladão, sorveteriano ou realmente precisamos de mais equilíbrio e moderação?"

Mesmo sem te conhecer, arriscaria a segunda hipótese. Falta Bíblia para equilibrar as coisas.

Em Cristo,

Clóvis

semper reformanda disse...

Eu não entendo vc clovis,diz que é reformado e acredita no batismo do espirito santo como uma segunda experiencia,tão combatido pelos verdadeiros reformados calvinistas,e provado biblicamente,teologicamente e historicamente.

james disse...

Clóvis,

Quando deparamos com posições como estas, desafiando as Sagradas Escrituras, lembro-me de Festo falando a este mesmo Paulo, que dizem estar errado: "as muitas letras te fazem delirar"...

Fraternalmente.
James.

Clóvis disse...

Ismael,

Compreendo sua perplexidade. Se serve de consolo, causo maior estranheza aos pentecostais quando digo que creio na predestinação. Porém, abem da verdade, essa incompreensão é infundada, se considerarmos, entre outras coisas, que a pneumatologia pentecostal não conflita com a soteriologia reformada. Pelo menos,a té hoje, nenhum pentecostal arminiano ou calvinista cessacionista conseguiu demonstrar.

Percebo em sua palavras que para ser um "verdadeiro reformado" é preciso negar o batismo com o Espírito Santo como uma experiência distinta da conversão. Como alguns também me dizem que para ser um "verdadeiro pentecostal" é preciso defender o livre-arbítrio.

Porém, eu sou pentecostal pela mesmíssima razão que sou calvinista: encontro bases sólidas na Bíblia para ambas as posições, e delas não fui demovido pelas argumentações de ambos os lados.

Mas estou aberto a reconsiderar as provas "bíblica, teológicas e históricas" e mudarei se elas forem mais bíblicas que teológicas e históricas.

Em Cristo,

Clóvis

Pr José Manuel e Pra Ana Marta disse...

PAZ, Achei muito esclarecedor e biblico o seu artigo. Concordo e prego que o dom de linguas é um dom "pessoal" e com a interpretação se torna "congregacional" e para que isto aconteça com frequencia basta orar: 1 Coríntios 14:13 Por isso, o que fala em língua desconhecida, ore para que a possa interpretar.
A igreja de Cristo seria muito mais edificada do que já é.

Pr J. Manuel

Clóvis disse...

Pr. José,

Eu insisto que se submetermos o exercício dos dons espituais às regras bíblicas para os mesmos, a igreja só tem a ganhar. Penso que muitos acham que exercitar os dons conforme a Bíblia ensina "esfriaria" a igreja. Penso exatamente o contrário.

Em Cristo,

Clóvis

Cleber disse...

Clóvis,
escrevi um novo artigo explicando que:

- Se a oração em línguas for devocional não precisa de interpretação.
- Se a mensagem em línguas for voltada para a congregação precisa de interpretação.

Dá uma olhada:
http://confraria-pentecostal.blogspot.com/2009/05/dom-de-linguas-no-culto-analise-de-1cor.html

Cleber.

Lucas Pequeno disse...

A visita de Pedro a casa de Cornélio, poderia ser um exemplo pra mostrar a distinção entre o batismo no Espírito Santo e o batismo nas águas?
Pois primeiramente eles foram batizados no Espírito Santo e depois nas águas né?
Só pra mim formar minha base teológica.
Eu to começando faz 1 mês só, estou estudando sozinho e orando pedindo que Cristo me mostre quem Ele é, que Ele revele passo a passo a Verdade (que é Ele) pra mim.
Eu tenho aqui a Teologia Sistemática Atual e Exaustiva do Wayne Grudem.
Obrigado. ( Novamente digo, estou aprendendo muito com vocês. Obrigado).

Postar um comentário

Sua leitura deste post muito me honrou. Fique à vontade para expressar suas críticas, sugestões, complemetos ou correções. A única exigência é que seja mantido o clima de respeito e cordialidade que caracteriza este blog.