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20 novembro 2009

100 anos antes da Reforma, John Hus é morto na fogueira

“Nós sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, dos que são eleitos segundo seus designios. Os que de antemão conheceu, também os predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho […]. E aos que predestinou, a esses também chamou. E aos que chamou, também justificou. E aos que justificou, a esses também glorificou. O que diremos, pois, a essas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?”

Pregar a glória divina, mencionada no capítulo 8º da Epístola de São Paulo aos Romanos, como sendo predeterminada por Deus, e rechaçar a dedução do poder terreno da Igreja era uma heresia no século 15, podendo ser punida com a morte. O reformador Jan Hus atacava assim a essência do cristianismo medieval.

Ele pregava o ideal da pobreza e condenava o patrimônio terreno dos príncipes da Igreja. Ele defendia a autoridade da consciência e tentava aproximar a Igreja do povo, através das pregações. E isso não era tudo: as suas pregações eram feitas na língua tcheca e não em latim, como determinava a Igreja oficial na época.

Jan Hus só reconhecia a autoridade da Bíblia nas questões da fé, repudiava os tribunais da Inquisição e os juízes terrenos. Um verdadeiro herege, que suscitava a cólera e o ódio das autoridades eclesiásticas.

Insatisfação popular – A doutrina de Jan Hus encontrou solo fértil na Boêmia. Ela se baseava na justiça social e expressava a insatisfação de todos os cidadãos tchecos. Na época, a agitação envolveu todas as camadas sociais.

A maior parte da população estava insatisfeita com a política financeira e de poder das autoridades eclesiásticas: negociantes e mestres artesãos disputavam as riquezas oriundas da mineração de prata, os camponeses queriam libertar-se da servidão feudal e os nobres tentavam assegurar duradouramente os seus privilégios.

As tensões sociais agravavam-se ainda através do rápido aumento de preços, que beneficiava sobretudo os cidadãos ricos, empobrecendo os camponeses e os nobres sem terra.

Conflitos entre alemães e tchecos – E as profundas barreiras sociais entre as populações alemã e tcheca faziam florescer sentimentos nacionalistas. Os ricos alemães eram vistos pelos tchecos como exploradores e concorrentes. Da sua parte, os alemães mostravam-se interessados em manter a situação reinante e, especialmente, em usar o poder da Igreja em proveito próprio. Por volta de 1400, tanto a recém-fundada Universidade de Praga como a alta hierarquia da Igreja eram inteiramente dominadas pelos alemães.

Com Jan Hus começou a agitação. Quando a disputa entre alemães e tchecos agravou-se, em 1409, os alemães foram postos para fora da Universidade de Praga e Hus foi escolhido como seu reitor. A atividade docente do reformador aumentou ainda mais as tensões com a Igreja e culminou em Praga, três anos mais tarde, com o confronto entre os protestantes tchecos e os católicos alemães.

A fim de manter a situação sob controle, o rei Venceslau baniu o reitor rebelde da universidade. Mas Jan Hus insistiu em que a sua doutrina era a correta: continuou pregando a imprescindibilidade da pobreza e da humildade da Igreja.

Propagação da doutrina continuou – As conseqüências vieram logo. Em 1414, Hus foi convocado a apresentar-se ao Concílio de Constança e a renegar a sua doutrina. O reformador negou-se a cumprir a exigência, reafirmando a crença na sua doutrina. No dia 6 de julho de 1415, Hus foi então executado na fogueira.

Não foi atingido, porém, o propósito da Inquisição, de liquidar o movimento protestante de Hus através da morte do seu líder. As revoltas esparsas transformaram-se numa rebelião geral dos protestantes da Boêmia, que durou 20 anos. Só em 1434 é que o movimento pôde ser aniquilado, em decorrência de traições e intrigas nas próprias fileiras.

Barbara Fischer

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