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26 março 2010

Pastores voadores

Desafiando a crise, líderes evangélicos brasileiros investem na compra de aviões particulares.

Dizem que um homem pode ser medido pela grandiosidade dos seus sonhos. Se é mesmo assim, um seleto grupo de ministros do Evangelho anda sonhando alto – literalmente.


Dizem que um homem pode ser medido pela grandiosidade dos seus sonhos. Se é mesmo assim, um seleto grupo de ministros do Evangelho anda sonhando alto – literalmente. Desde o ano passado, diversos pastores brasileiros andam cruzando os céus em aviões próprios, um luxo antes somente reservado a altos executivos, atletas milionários e sheiks do petróleo. A justificativa para as aquisições, algumas na faixa das dezenas de milhões de dólares, é quase sempre a mesma: a necessidade de maior autonomia e disponibilidade para realizar a obra de Deus, o que, no caso dos grandes líderes, demanda constantes deslocamentos pelo país e exterior a fim de dar conta de pregações e participações em palestras e eventos de todo tipo. Eles realmente estão voando alto.

O empresário e bispo Edir Macedo, dirigente da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) tem feito a ponte aérea Brasil – Estados Unidos a bordo de um confortável Global Express, avaliado no mercado aeronáutico por US$ 50 milhões (cerca de R$ 85 milhões). Para comparar, o preço é semelhante ao do Rafale, o caça-bombardeiro francês que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sonha comprar para as Forças Armadas brasileiras. Equipado com sala de estar, dois banheiros, minibar e lavabo, além de um confortável sofá, o jato permite deslocamentos dos mais confortáveis até os EUA, onde Macedo mantém residência, e tem autonomia suficiente para levá-lo à Europa ou à África. O Global, adquirido em setembro numa troca por um modelo mais antigo, veio juntar-se à frota da Alliance Jet, empresa integrada ao grupo Universal e que já possuía um Falcon 2000 e um Citation X, juntos avaliados em 40 milhões de dólares.

Edir Macedo justifica o uso de aviões particulares dizendo que precisa levar a Palavra de Deus pelas nações onde a igreja atua, que já são mais de 120, e também para evitar transtornos aos passageiros dos aviões comerciais, pois sua pessoa costuma atrair muita atenção da mídia. Pode haver também outros motivos. Foi em voos particulares que a Polícia Federal descobriu, em 2005, que deputados e empresários ligados à Iurd transportavam dinheiro em espécie, no episódio que ficou conhecido como o caso das malas. Os valores, explicou a igreja na época, teriam sido arrecadados nos cultos e eram transportados dessa maneira por questão de segurança e praticidade até São Paulo e Rio de Janeiro, onde a denominação tem sua administração.

Já o missionário R.R.Soares, mais discreto que o cunhado Macedo, não fez alarde da aquisição do turboélice King Air 350, em novembro, fato noticiado pela revista Veja.. Avaliado em cerca de R$ 9 milhões, a aeronave transporta oito passageiros. Como tem uma agenda das mais apertadas, Soares viaja praticamente toda semana pelos mais de mil templos que sua Igreja Internacional da Graça de Deus tem no país, além de realizar cruzadas e gravar programas diários para a TV. Ele realmente tem pensado alto: a igreja também mantém parceria com a empresa de aviação Ocean Air, através da qual um percentual sobre cada passagem comprada por um membro da Graça reverte para a denominação.

“Conquista” – O que chama a atenção no aeroclube dos pastores são as justificativas espirituais para a compra das aeronaves. Renê Terra Nova, apóstolo do Ministério Internacional da Restauração em Manaus (AM) e um dos grandes divulgadores do movimento G12 no Brasil, conta que o seu Falcon é fruto de profecias de grandes homens de Deus como o pastor e conferencista americano Mike Murdock. Em abril de 2009, durante um evento em que ambos estavam, Murdock incentivou uma campanha de doações a fim de que Terra Nova pudesse realizar seu “sonho”. Após chamar Terra Nova à frente, ele mesmo anunciou que ofertaria R$ 10 mil reais, atitude logo seguida por dezenas de pessoas. O avião foi comprado em julho. Dizendo-se “constrangido” com a atitude, Terra Nova admitiu que aquele era seu desejo e que se submetia ao que considerava a vontade de Deus. “O Senhor é testemunha que este avião não é para vaidade, mas para estimular que outros ministérios a que também tenham aviões e, juntos, possamos voar para as nações da terra, pregando o evangelho de Jesus. Assim está estabelecido”, diz o líder em seu site.

“Conquista” e “resultado da fé” também foram as expressões usadas pelo pastor Samuel Câmara, da Assembleia de Deus de São José dos Campos (SP), para comemorar a compra de seu King Air C90, de quatro lugares. O religioso, que durante anos liderou a Assembleia de Deus em Belém (PA) – onde montou a Rede Boas Novas, conglomerado de rádio e TV que cobre vinte estados brasileiros –, se diz muito grato a Deus pela bênção, avaliada em R$ 8,5 milhões. Ele espera juntar-se a outros líderes para montar “uma esquadrilha de aviões para tocar o mundo todo”. Ano passado, Câmara também esteve no noticiário pelas denúncias que fez contra supostas irregularidades nas eleições para a presidência da Convenção Geral das Assembleias de Deus (CGADB).

Mas a aquisição aérea que mais chamou a atenção, dentro e fora do meio evangélico, foi concretizada pelo famoso pastor e apresentador de TV Silas Malafaia, da Assembleia de Deus da Penha, no Rio. Possuir uma aeronave própria era um objetivo anunciado pelo líder já há algum tempo, inclusive em seu programa Vitória em Cristo, um dos campeões de audiência na telinha evangélica. Além dos insistentes pedidos por ofertas para manter-se no ar, Malafaia constantemente tocava no assunto avião em suas falas. O empurrão que faltava foi dado pelo pastor americano Morris Cerullo, outro profeta da prosperidade proprietário de um luxuoso Gulstream G4. Num dos programas, levado ao ar em agosto, Cerullo admoestou os telespectadores a desafiar a crise global e participar de uma campanha de doações ao colega brasileiro – um chamado “desafio profético”, no valor de 900 reais, estipulado graças a uma curiosa aritmética que associava a cifra ao ano de 2009.

Aparentemente surpreso, Silas Malafaia assentiu com o pedido. Não se sabe quanto foi arrecadado a partir dali, mas o fato é que em dezembro o pastor anunciou que o negócio foi fechado por cerca de US$ 12 milhões, cerca de 19 milhões de reais. Trata-se de um jato executivo modelo Cessna com pouco uso. Um “negócio espetacular”, na descrição do próprio. Bastante combatido pela maneira ostensiva com que pede ofertas para seu ministério, o pastor Malafaia, que dirige também a Editora Central Gospel, recorre à consagrada oratória para se defender: “Quem critica não faz nada. Você conhece alguma coisa que algum crítico construiu? Crítico é um recalcado com o sucesso da obra alheia.”

Fonte: Redação da Cristianismo Hoje

17 comentários:

Ricardo Mamedes disse...

Não vou comentar longamente o artigo. Há duas características peculiares a esses pastores voadores: arrogância e ganância. Se há algo de bom ainda neles, é que a mensagem é poderosa, "viva e eficaz", e não depende deles. Logo, até mesmo em meio à podridão pode haver transformação de vidas.

No mais, que Deus tenha misericórdia das suas almas.

Ricardo

Luciano disse...

Por causa dessa raça de infelizes que o evangelho do Senhor Jesus é difamado!
TENHO VERGONHA DISSO !!! NOJO !!!
Quando lembro de Wesley, Calvino, Miller e tantos outros...
Deus preseve-nos.
Lamento em ser identificado como evagelico nesse país.

Anonymous disse...

Mas, se é de Deus, não podereis desfazê-la; para que não aconteça serdes também achados combatendo contra Deus. Atos 5:39.
Senhores melhor é deixar tudo nas mãos de Deus.


Atenciosamente,
Gemilson Ribeiro

Neto disse...

Caro Gemilson,

O Budismo foi iniciado cerca de 400 antes de Cristo ter nascido.
Ou seja, é uma religião com cerca de 2.400 anos de existencia.

Isso então, segundo seu raciocinio, prova que o Budismo é de Deus?

Anonymous disse...

Irmão me desculpe, pois creio que fui infeliz no comentário que fiz.


Atenciosamente,
Gemilson Ribeiro

Anonymous disse...

Eu estou querendo comprar um Caloi barra dupla.
Isso pode?

David Portela disse...

Não vou me adentrar nas motivações de outras pessoas, pois se nem o meu próprio coração eu consigo discernir sem falha, quanto mais o deles.

Mas acho importante lembrarmos de algumas coisas:
1. Riqueza e até opulência são medidas relativas. Um pastor pobre no Brasil é riquíssimo comparado a um missionário ou pastor em Bangladesh.
2. A 90 anos atrás, ter um carro motorizado era um luxo, a grande maioria ainda andava por outros meios de transporte (i.e. pocotó), e um pastor que tivesse um carro provavelmente seria linchado por gastar o dinheiro do ministério nisso. Hoje todo mundo tem. Então a riqueza e a opulência não são apenas geograficamente relativas, são temporalmente relativas também.
3. Não sou de nenhuma das igrejas citadas e nenhum desses pastores é o meu pastor. Me recuso a pronunciar um julgamento sobre os gastos de um ministério cujas necessidades não conheço bem, com o qual não tenho envolvimento, e principalmente acima do qual não fui posto como mordomo. Já bastam os pepinos pra resolver na minha própria igreja e nos ministérios onde trabalho. Quando tudo estiver perfeito por lá, aí...bem, nunca vai estar até a volta de Cristo, e aí não vai mais ter sentido falar dos problemas dos outros. ;-)

Abraços,

- David

Clóvis disse...

David,

Seja bem vindo ao Cinco Solas, com certeza sua participação enriquece muito os debates.

Concordo que a riqueza e a opulência são relativas, se compararmos a situação no tempo e no espaço. Porém, quando consideramos o momento atual e a igreja brasileira, com certeza um avião foge em muito da média.

Apenas como exemplo, nossa igrejinha de meia centena de membros, todos assalariados, mantém um missionário no interior da Bolívia. Não imagina o quanto é difícil levantar R$ 1000 todos os meses para que não falte sustento ao irmão Joel. Poderia dizer que, relativamente, 130 milhões de reais pagos para que menos de meia dúzia de pastores voem confortavelmente em seus jatinhos não se enquadra em "necessidades ministeriais".

Além disso, não consigo atinar como a pregação do evangelho é impulsionada pelo uso de aviões por parte desses pastores.

Em Cristo,

Clóvis

Clóvis disse...

Gemilson,

Não precisa se desculpar. Não é o primeiro nem o último a usar o argumento de Gamaliel para abster-se de criticar ministérios.

Em Cristo,

Clóvis

David Portela disse...

Clóvis -

"Além disso, não consigo atinar como a pregação do evangelho é impulsionada pelo uso de aviões por parte desses pastores." - Será que isso não é por algum julgamento (justificado ou não) do teor teológico destes pastores e dos seus ministérios? E se fosse o Piper ou o Driscoll que estivesse prestando assistência a uma rede de igrejas? Mudaria um pouco a perspectiva? Creio que deve haver uma linha que, depois de cruzada, justifica o custo extra pela agilidade obtida na locomoção. Resta então saber se temos (ou até se é possível ter) os dados dos ministérios citados para saber se cruzaram esta linha (ou mesmo se é da nossa conta saber disso, que é o meu último ponto abaixo).

A comparação de ser entre 130 milhões e 1.000 reais é um falso dilema, creio eu. São essas as opções que enfrenta a sua igreja local? Creio que não. Primeiro, os 130 milhões, como você disse, são cumulativos entre todos eles, que estão sendo sustentados cada um por centenas/milhares de igrejas/comunidades que contribuem com o ministério de acordo com as suas consciências (quer regeneradas ou não, desconheceremos sempre e não podemos/devemos julgar isso). Segundo, creio que a responsabilidade de toda igreja local é de apoiar os ministros/missionários/seminaristas/cozinheiro|as/etc que se propôs a suportar. A sua igreja se propôs a apoiar um missionário...as igrejas dos pastores acima mencionados se propuseram a apoiar outros ministérios. Caveat contributor...

Mas o meu ponto principal, que era o (3), passou batido, e não estou nem um pouco pensando em Gamaliel, como o nosso outro irmão, e sim em Mateus 7. Sei que o texto acima é da Cristianismo Hoje, mas isso não é notícia, e sim pré-julgamento público sobre um assunto cujos pormenores provavelmente desconheceremos por toda a eternidade. Creio que temos coisas bem mais produtivas a resolver, inclusive pensando na maneira como administramos as nossas igrejas locais e até organizações para-eclesiásticas como as nossas denominações.

Um abraço, e parabéns pelo blog! Gostei muito do outro artigo sobre Romanos, que gerou toda aquela discussão!

- David

Clóvis disse...

David,

Permita-me mais um comentário rápido, com o reconhecimento de que o que o irmão disse está sendo considerado por mim.

Com relação aos dois pesos e duas medidas, creio que não se justificaria Piper e Driscoll terem aviões particulares. A questão é de ordem prática, tem a ver com a boa administração dos recursos do reino. Independente da mensagem que pregam, considero um mau uso, se não confusão patrimonial, de dinheiro que deveria promover o reino de Deus na terra. O fato de tais pastores alados pregarem um evangelho falsificado não é mera coincidência, mas com certeza é um agravante.

Sobre o último ponto (o 3), entendo o seu cuidado, porém se para emitir julgamento tivermos que conhecer os pormenores financeiros desses ministérios, então nem mesmo auditores fiscais da Receita Federal estão aptos. Além disso, acho que Mateus 7 é inapropriado, pois não estamos fazendo juízo temerário, tentando invadir corações (estou endossando o texto da Cristianismo Hoje, embora não aprove a revista como um todo), mas julgando os frutos exteriores de tais pessoas. O que passa por seus corações, deixamos por conta de Deus, já o desembolso de milhões, obtidos de pessoas que dão "para Deus", isto podemos, e devemos, fazer, mesmo não surtindo efeito.

Em Cristo,

Clóvis

Clóvis disse...

Por falar em Piper, li um texto do mesmo, em que ele comunica que está se afastando do ministério até o final do ano, pelo que entendi do meu inglês sofrido, para se dedicar à família. Se alguém souber de detalhes e quiser ser mais preciso, agradeço.

Mas chama atenção no texto que ele pediu que sua igreja não lhe remunerasse nesse período, o que foi recusado pelo conselho da igreja.

Isso é um indício de que há alguma diferença entre ele e os nossos pastores voadores.

Em Cristo,

Clóvis

David Portela disse...

Clóvis -

Foi realmente bonita a atitude do Piper.

Olha, eu realmente entendo porque às vezes a gente gosta de apontar o dedo e expor os excessos e problemas de pastores que não são da nossa "linha". É verdadeiramente irritante ver pessoas fazendo as coisas de jeitos que achamos ridículos no mínimo, senão errados e em má fé. Mas eu simplesmente não consigo fazer isso sem reconhecer um sentimento pecaminoso de auto-justiça em mim, uma idéia de que eu (ou a minha igreja ou denominação), de alguma forma, sou "melhor" do que eles. Pegando um gancho na discussão de Romanos, se de alguma forma escapei de cometer os mesmos erros, foi apenas pela graça de Deus. Este Deus me deu prioridades para cuidar. Não encontro entre estas prioridades apontar os (supostos) erros de administração de outros pastores...então evito. :-)

Agora comparar os ensinos de tais líderes com a Bíblia, isto creio que somos chamados para fazer (com amor, é claro).

Abraços!

- David

Clóvis disse...

David,

Acho que fechamos num razoável acordo, :-)

Deus o abençoe e à sua igreja.

Em Cristo,

Clóvis

Anonymous disse...

Irmão,
A que vc atribui tanto "sucesso" dos tais pastores voadores?



Atenciosamente,
Gemilson Ribeiro

Neto disse...

Gemilson,

ao meu ver, eles falam o que todos querem escutar.
Pronto. Taí a fórmula...

Pr. Marcos Crecchi disse...

O sagrado se tornou profano!

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